AXEXÊ

sirrum e Zerim

Mukuiu N’Zambi! A morte nunca foi um assunto agradável, nem mesmo para quem faz parte de um religião espiritualista como as de Matriz Africana, seja Umbanda ou Culto de Nação. Afinal de contas nosso instinto de preservação nos afasta inconscientemente do contato com a morte, o que é completamente natural.
A Umbanda possui um Ritual para Velar os mortos, que pode variar de Casa para Casa, aqui neste Post vamos tratar a respeito do Axexê que é um Ritual próprio de Nação.
Sem o Axexê não existe o “começou”, não há existência, ele marca o final da passagem da existência individual de cada um. Sua origem vem de um Itan o qual conta que quando o pai de Oyá morreu, ela dançou durante 7 dias em homenagem a ele. Zambi vendo este ato de amor deu a Oyá o poder sobre os mortos e ela se tornaria patrona do culto a Egungun e criando assim o Axexê.
Quando somos Iniciados nos Orixás fica bem claro que estaremos ligados a Eles enquanto tivermos vida. Quando morremos o nosso espírito retorna ao Orun e o nosso corpo retorna ao barro primordial de onde veio, mas para que isso seja feito de forma correta e tenhamos o desligamento completo do Ayê e de nossos corpos é feito o Axexê, pois ficamos ligados ao nosso Axé indivdidual, ou seja o adoxu, além dos outros símbolos, como o Igbá, nosso assentamento. Muitos zeladores consideram um erro “despachar” as coisas, porém na maior parte das vezes, quando o filho ainda é um Yawô, os Igbás são entregues a natureza assim como seu quelê e outros objetos, lembrando que é durante o ritual, através do jogo de búzios que o Egun, o espírito, destina o seus pertences.
O ritual dura 7 dias a partir da morte passando por várias etapas, geralmente à noite, mas com um grande preparo anterior., sendo o Xirê apenas a parte pública do Axexê. Vamos falar sinteticamente a respeito de cada etapa do Axexê:

1) Preparação:
Tomado o conhecimento do falecimento de um Adosù (iniciado) da Casa levanta-se um pequeno recinto provisório, coberto de folhas de palmeira.
Os Assentamentos pertencentes ao falecido (a) , bem como todos seus pertences sagrados são depositado no chão deste recinto provisório aos pés dos Ilé Orixás, e suas quartinhas que continham água, são esvaziadas e emborcadas.

2) Os cinco primeiros dias:
A duração do Ritual do Axexê varia de acordo com o tempo de iniciação do falecido, podendo durar 01 (um), 03 (três) ou 07 (sete) dias. No caso de um Sacerdote ou Sacerdotisa o Axexê dura sete dias e repete-se no 1° mês, no 3° e 6° mês, voltando a ser realizado no 1°, 3° e 7° ano, tempo que o Egun leva, para desprender-se totalmente de suas raízes no Ayê.
Levando-se em conta um Axexê de 07 (sete), os 05 (cinco) primeiros dias seguiriam esta sequência:
a) Todos os membros do Egbé (sociedade ou Casa), rigorosamente vestidos de branco, reúnem-se no Terreiro ao pôr-do-sol, para celebrar o padê. O espírito do morto é evocado junto com Exu e todas as entidades.
b) Terminado de cantar o Padê, todos posicionam-se em volta de uma cuia vazia, que ocupa o centro da sala, deixando sempre uma passagem de saída para o exterior. Neste momento, um dos sacerdotes, encarregados do ritual que se vai desenrolar, no recinto exterior onde estão os pertences do falecido, traz uma vela, coloca ao lado, da cuia e ascende.
c) Todos os que estão presentes, enrolam suas cabeças com com um Ojá branco, pois no momento em que se ascende a vela acredita-se que o espírito do morto se encontre na sala, representado pela cuia. Começa um longo rito, começando pelo Zelador da Casa, seguido dos demais por ordem de hierarquia, e por fim os noviços de dois a dois, saudando o exterior, a cuia, os presentes, e por fim dançando em volta da cuia, passando por seu corpo e cabeça, uma moeda, depositando a moeda na cuia, delegando sua própria pessoa ao morto, ao som com cantigas específicas .
d) Quando todos os presentes prestaram suas homenagens e despediram-se do morto, forma-se uma roda Irmãos de Santo passam a entoar algumas cantigas.
e) Logo após algumas Adoxus trazem comidas especialmente preparadas para essas ocasiões e depositam ao lado da cuia, junto com um obi.
f) A cuia é levantada com as moedas, vela apagada, e tudo é transportado juntamente com a comida e o obi para o recinto externo, onde é colocado junto com os pertences do falecido.
g) Todos descobrem suas cabeças, amarram um pano branco por debaixo dos braços e formam uma no roda, saudando e homenageando os Orixás. Acabada esta parte da cerimônia, todos voltam a cobrir sua cabeças e cantam uma única cantiga de adeus ao morto.

3) Sexto dia:
a) Aos pés das comidas, do obi e da cuia, colocam-se os bichos que serão oferecidos de acordo com o Axé do morto.
b) É colocado no punho esquerdo, de todos os assistentes pequenas tiras de mariwó. É isso que os identifica como filhos do terreiro e os protege. Algumas casas usam contra-eguns.
c) Os membros da Casa retomam seus lugares e esperam, em silêncio absoluto, o termino do rito. Nesse meio tempo, é preparado o chamado “final do morto”. Trazem tudo, “assentos”, objetos pertencentes ao morto, cuia, obi, comidas, e animais, traçam no solo de barro um pequeno círculo com areia e por cima um círculo com as três cores símbolos, é um Ojúbo provisório em que se invocará o morto. No meio dele parte-se o obi, e com seus seguimentos consulta-se Ifá sobre a destinação de cada objeto pertencente ao morto, bem como seus assentamentos. Se tratando de um Sacerdote ou Sacerdotisa, às vezes acontece que o assentamento de seu Orixá permaneça no Terreiro, com a condição de que o falecido, após consultado, esteja de acordo.
O resto ,que o falecido não deixa para ninguém, é posto em volta do círculo assim como as três vasilhas novas de barro, que descreveremos como o “assentamento do Egun do Adosù”. Se essa Adosù que partiu tiver um grau elevado, ou se for o caso de ser o dirigente do terreiro, essas três vasilhas serão separadas para proceder, mais tarde, a seu “assentamento” junto ao Ilê-Ibó-Iku. Caso contrário, que é a maioria, as três vasilhas são colocadas envolta do circulo-ojubò. O sacerdote, que “preside” a cerimônia, invoca o morto, batendo três vezes no solo com um Isán novo, preparado com uma grossa tala de palmeira. Invoca-se para que ele venha apanhar seu “carrego”, para que leve e se separe para sempre do Terreiro.
Na terceira vez tudo é quebrado e destruído com o Isán, as vestimentas são rasgasdas e os colares arrebentados. Os animais são sacrificados e colocados por cima dos objetos quebrados, onde se coloca parte das moedas que se esparramaram ao quebrar a cuia e os mariwôs que foram retirados dos punhos irão junto com os despojos do morto. Coloca-se por cima um punhado da terra com a areia e as três substâncias cores recolhidas oportunamente. Um grande carrego é preparado: É o Erú, e os sacerdotes levarão, no dia seguinte, a perigosa carga, especificado pelo oráculo para que Exu disponha dele.
Forma-se uma roda e canta-se um Xirê, onde não se canta para Xangô (ele só pode ser louvado após o carrego que acontecerá no sétimo dia).

4) Sétimo dia:
a) No sétimo dia pela manhã é posta uma mesa no centro do Terreiro, onde todos os participantes vão compartilhar as refeições com o falecido. É colocado um alguidar e louças para o morto à cabeceira da mesa, em lugar de destaque, onde lhe é servido as refeições. Embaixo da mesa, também ficam vasilhas e alguidares, para despejo do que “sobra” das refeições, que posteriormente farão parte do “carrego”. É servido ao morto e aos demais participantes o café da manhã e o almoço, depois que termina o almoço junta-se tudo o que sobrou e coloca-se no carrego.
Ao entardecer, canta-se novamente o Padê, enquanto os carrego é fechado. Todos se levantam na saída do carrego, e cobrem o corpo com um Ojá branco.
b) Todos os participantes esperam em silêncio o regresso dos sacerdotes que foram despachar o carrego..
c) Depois de despachado o “carrego”, cantam-se duas cantigas do axexê (para Exu e para Oyá) e após , para os demais Orixás (Xirê), inclusive para Xangô. Pode acontecer a manifestação dos Orixás que pertencem ao Axexê, principalmente no caso de ser o Axexê do Zelador ou Zeladora do Terreiro.
d) Após o Xirê é realizada uma uma limpeza ritual do Terreiro, com folhas e amacis especiais, afim de “VARRER” os passos do morto do Terreiro. Os Quartos de Santo deverão ser “sacudidos”, bem como todas as quartinhas despachadas, ser for o Axexê do Zelador ou Zeladora do Terreiro, tudo deve ser lavado para retirada da “mão” ou Axé, inclusive dos Boris (cabeças), pelo seu substituto (a).
e) Após o sacudimento e retirada de mão, se for o caso, o Terreiro permanecerá fechado ao público por um período pré-determinado pelo jogo, no entanto, se for a morte do Zelador ou Zeladora, fica fechado para o público por 01 (um) ano, porém as atividades internas continuam normalmente, respeitando algumas restrições de acordo com os “fundamento do terreiro” e da Nação de origem a qual pertence.
Como vemos é um Ritual muito complexo e o que foi exposto é apenas a sistemática, e não os fundamentos, já que estes só são de conhecimento de quem tem seu devido tempo de iniciação.

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