A FORMAÇÃO DO MÉDIUM UMBANDISTA

caridadeleve

Eu venho a muito tempo postando artigos sobre culto de Nação. Isto se deve pela minha formação dentro do Omolokô, no entanto hoje quero falar sobre a nossa querida Umbanda, onde comecei minha vida religosa, especialmente sobre a formação dos médiuns e dirigentes de um Terreiro de Umbanda.
A Umbanda é uma religião heterogênea e passou a ser conhecida por esse nome através de Zélio de Moraes em 1908, no entanto é sabido que antes disso haviam cultos onde já se trabalhava com Caboclos, Pretos Velhos e por aí vai, tanto no Rio de Janeiro, como no Sul do Brasil, Nordeste e Norte. Eram as antigas “macumbas” como eram chamadas no Rio de Janeiro no final do Século XIX. Estes Cultos passaram a ser chamados de Umbanda também, mesmo não seguindo a Teo-filosofia de Zélio de Moraes, tanto que no Sul do Brasil muitos Terreiros que praticam Umbanda nem sabem quem foi ele. Assim a Umbanda acabou ficando muito heterogênea, e aumentou ainda mais suas ramificações da última metade do século passado para cá, surgindo a Umbanda Branca, Esotérica, Iniciática e Renovada como exemplos. Tudo isso, na minha opinião, são formas de tornar a Umbanda mais aceitável aos olhos preconceituosos da sociedade, inserindo “fundamentos” astrológicos, orientais e aumentado a influência kardecista, facilitando assim a aceitação da Umbanda pela diminuição do elemento Africano. Afinal de contas astrologia, filosofia oriental e cultura européia (kardecismo) são coisas da moda na nossa sociedade, não interferindo de maneira alguma na seriedade e axé dos trabalhos, como disse é uma opinião pessoal minha, e de maneira alguma quero desmerecer tais Correntes Umbandistas. Enfim a Umbanda hoje não é uma Religião única, e sim uma conjunto de Religiões afins. O que se tem como padrão de Umbanda em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, é diferente do que se chama de Umbanda no Nordeste, que é bem diferente da Umbanda do Sul do País, Argentina, Uruguai e Paraguai. A Umbanda é muito mais do que termos, e não é propriedade e muito menos criação de nenhum tipo de corrente mediúnica que utilize seu nome.
O movimento espiritual da Umbanda é propriedade da espiritualidade que o compõe, a qual trabalha sempre para a evolução espiritual, sem se preocupar com termos, nomes ou vaidades.
Estou cansado de ver “Umbandistas” visitarem outros Terreiros e estarem preocupados se os preceitos são iguais ou diferentes dos seus, ao invés de estarem com a cabeça voltada para o que realmente interessa, os trabalhos.
A nossa preocupação não deveria ser os preceitos utilizados dentro de cada Casa, ou o “tipo” de Umbanda ali praticado, e sim a seriedade com que os trabalhos são realizados.
Cada dirigente deve ter o conhecimento necessário para conduzir uma Casa de Umbanda dentro da vertente em que foi feito e deve também ter, principalmente, condição moral para dirigir uma corrente sem vaidades, sem interesses pessoais, com respeito e com fé.
Devemos repudiar àqueles que fazem mau uso do nome Umbanda, fazendo cobranças de dinheiro, magia negra, animismo, sexo e outras coisas negativas em seus trabalhos. Àqueles que sem direito algum, sem formação, sem moral, sem segurança alguma se intitulam Dirigentes, Babalorixás e Yalorixás, já que Umbanda não se aprende em cursinhos de final de semana, e a autoridade e responsabilidade de um Dirigente não está baseada em um diploma.
Por falar em “Cursos”, um fato que me trouxe grande preocupação foi o de encontrar vários Sites onde são oferecidos Cursos (pagos obviamente) ensinando desde como firmar uma tronqueira até assentar Orixá (no entanto isto não se resume apenas à Umbanda, existe muita gente vendendo apostila com fundamentos de Nação por aí).
O perigo disto, é que qualquer pessoa pode fazer um curso a distância deste, ganhar o seu diploma de “Pai de Santo” e sair abrindo uma Casa. Pode até ser que tais cursos ensinem algo que realmente tenha fundamento, mas e a formação moral, afetiva e psicológica que se deve ter para conduzir uma Ilê com responsabilidade? Afinal de contas uma pessoa leiga ao entrar em uma Casa e ver um diploma, entenderá que está em um lugar sério, podendo não ser verdade.
É muito bom querer adquirir conhecimento e existem várias formas de se aprofundar no assunto. A própria Internet possui muita informação, mas cuidado, muitas também são errôneas. A melhor maneira é aprender com os mais antigos. Digo que sempre aprendemos cerca de um terço estudando, e dois terços vivenciando as coisas dentro de Terreiro. Saber conceitos é uma coisa muito importante, mas lembre-se fundamentos são, e devem ser, ensinados apenas aos iniciados, e no tempo certo de aprenderem. Mas dentro daquilo que já lhe é permitido converse com os mais antigos, pergunte e aprenda, mas um grande ensinamento é aprender ter paciência e não pular etapas.
A autoridade na Umbanda está no conhecimento religioso, na moral e na espiritualidade, e estes atributos não se aprende em curso, se consegue com trabalho, vivência, respeito pelos mais velhos dentro da Religião, com a fé, persistência e uma série de outros atributos que um PAI ou MÃE deve ensinar aos filhos, caso contrário encontraremos cada vez mais aberrações existentes por aí.
Já escutei até a seguinte frase: “meus Guias me deram direito de abrir uma Casa, pois eles já estão prontos”. Sem entrar muito no mérito da questão os Guias podem até estar, e o médium está?
Irmãos, vamos prestar atenção no que interessa, vamos procurar aprender, fortalecer nossa fé e deixar a vaidade de lado, e impedir que aqueles que fazem mau uso do nome Umbanda continuem o fazendo. Impedir que o “Trago seu amor em sete dias por um punhado de dinheiro” continue se espalhando através de pseudo-sacerdotes manchando o nome das Religiões de Matriz Africana. A vertente seguida por uma Casa pouco importa, desde que haja fundamento e ancestralidade, pois uma árvore não fica de pé sem ter RAIZ.

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2 Responses to A FORMAÇÃO DO MÉDIUM UMBANDISTA

  1. Carlos says:

    Boa Noite Pai Renato. Gostei muito deste texto. Aprendi bastante, mas devo salientar que não concordo com ele na íntegra. O sr explicitou ser opinião particular, contudo gostaria de debater o assunto caso o sr me permita. A Umbanda vem evoluindo e alguns padrões vem sendo mudados. De fato o “kardecismo” e outras correntes vem influenciando a maneira de se fazer a umbanda, mas tenho que afirmar que várias práticas que estão sendo mudadas são para melhorar e não para tornar mais aceitável pela sociedade. O sacrifício de animais, as oferendas que poluem nossos rios e mares devem ser abolidas sim, e isso não é “desafricanizar”, isso é evoluir. Ao invés de oferecer uma comida na mata para Oxossi, eu acredito ser valido também plantar uma árvore naquela mata dedicando a mesma aquele Orixá. Quando a Umbanda foi Criada, pelo Caboclo das Sete encruzilhadas, em Niterói-RJ, em primeiro momento, foram necessários vários métodos e formas de trabalho que eram agressivos aos olhos, mas necessário para conseguir credibilidade. A própria mediunidade de início era basicamente inconsciente. Hoje grande parte dos médiuns trabalham de forma conscientes, de forma que também aprendam no momento da consulta. Assim o Guia ensina consulente e médium. Bem o assunto é vasto e é impossível esgota-lo. Desejo ao Irmão sucesso no caminho e trabalhos desenvolvidos pelo teleiro.

    • Mukuiu N’Zambi! Como eu disse no texto, é apenas uma opinião pessoal, sem a mínima intenção de desmerecer a doutrina de ninguém, pelo contrário, já visitei Casas de diversas “vertentes” de Umbanda e Nações, e percebe-se que o suporte dado aos trabalhos é a seriedade nas coisas de Religião, e não a doutrina ou Nação praticada em uma Casa.
      Como diz meu Pai de Santo: “O Santo se adequa ao meio.”
      É verdade. As doutrinas são criadas ou adaptadas, mas na verdade para a espiritualidade o que interessa é a finalidade (o bem comum), o processo (ritual) é apenas um meio de atingí-la.
      Quanto aos sacrifícios, isto já é um assunto polêmico. Os sacrifícios não fazem parte da Umbanda, apesar de algumas poucas Casas realizarem. Eles são um preceito de culto de Nação como Candomblé, Batuque e Omolokô por exemplo. Possuem um sentido de “comunidade”, onde aquele animal abatido servirá de alimento à comunidade de um Terreiro, devendo a carne ser utilizada com a finalidade de alimentação dos frequentadores da Casa ou até mesmo doação, dependendo da quantidade. Os animais são tratados de maneira litúrgica, não havendo de forma alguma maus tratos com eles, não utilizando fêmeas prenhas ou com filhotes e fazendo o sacrifício de forma rápida e com rezas e cantos próprios expressando o respeito àquele ser que está sendo imolado para alimentar uma comunidade. O sangue derramado significa a entrega daquela vida aos Orixás, e o agradecimento pelo alimento. Esta prática é ancestral, e tem que se ter o entendimento que em Culto de Nações o Terreiro representa uma comunidade, como se fosse uma tribo, e na África a tribo tinha o status de família, onde a alimentação era considerada sagrada e deveria ser dividida com os Orixás, Voduns, Inkices, Bakuros, enfim com as divindades, como forma de agradecimento. Daí também se explica o sentido e a finalidade das oferendas.
      Concordo com que disse a respeito de poluição, mas ressalto que isso acontece principalmente por questão de atitude por parte dos Sacerdotes. Vejo constantemente Oferendas contendo materiais inorgânicos como vidros (garrafas e copos), plásticos (sacos), isopor (barcos), por exemplo. Deve ser feito um trabalho de conscientização no sentido da utilização de materiais que não causem impacto ambiental, utilizando apenas as comidas rituais, entregue em recipientes de barro, recolhendo-se garrafas e sacos utilizados para transportar as bebidas e materiais, cuidados com velas para não provocar incêndios, materiais que causem mau cheiro devem ser enterrados, enfim uma série de cuidados e atitudes “educadas” que resolvem este tipo de problema.
      Agradeço a participação do Irmão, pois as Religiões de Matriz Africana correspondem a uma gama muito grande de doutrinas, onde podemos, ou melhor, devemos trocar idéias e buscarmos um maior entendimento e maior união para podermos ser respeitados.

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