IGBÁ ÒRÌSÀ

ajaguna

Um assentamento de Orixá (Igbá Òrìsà) é uma representação do Orixá no espaço físico, no mundo, no Aìyé. Ao olharmos um Igbá é como se estivéssemos olhando para a divindade.

Os Orixá são adequadamente representados por símbolos e grafismos próprios de cada um e por extensão por outros elementos como folhas, árvores, favas e contas. Mas o Igbá é a sua representação mais adequada.

Vale refazer a afirmação, já explicada em outro material, de que o Orixá não são elementos da natureza, assim “olhar” o vento não significa olhar para Oya, olhar uma pedra não significa olhar para Xango, olhar para o mar não significa olhar para Yemanja, etc.
O mesmo sentimento que um católico tem ao olhar para uma imagem de um Santo em sua Igreja e altar, o povo de santo tem ao olhar para um Igbá. Contudo os Igbá são de acesso muito restrito, de uso exclusivamente sacro e ritualístico, não tem visibilidade pública e ficam guardados dos olhos de todos.
Dessa maneira, cada Igbá representa uma divindade através de um recipiente e seu conteúdo, e esse conjunto é específico de cada divindade. Podem ser de porcelana (substituindo cabaças), barro ou madeira e metal. sendo empregados distintamente para cada divindade que ele representa.
São usados elementos físicos comuns, como tigelas, sopeiras, pratos, bacias, gamelas e alguidares. O iniciado no seu processo de feitura poderá receber um ou vários Igbá, dependendo do seu status na religião e da própria tradição da Casa em conduzir este ritual.

Mas o Igbá não é o Orixá no Aìyé. Um Orixá não é colocado dentro de uma sopeira ou coisa parecida, não é uma religião animista. O Igbá representa apenas a ligação entre os dois espaços, o espaço físico e o espaço espiritual. É uma “ponte” entre os dois espaços. Sua função não é trazer o Orixá para o Ayé porque Eles já estão presentes em nossa vida o tempo todo.

‘O Igbá é, de fato, um dos elementos mais importantes e significativos por traduzir a contínua relação entre o Orun e o Ayé. Ele representa o reconhecimento da existência do espaço espiritual, o Orun, e a ligação que existe entre os dois espaços (Òrun-Ayé). Dessa maneira o seu valor não está somente na sua existência como instrumento ritualístico, como foi ressaltado no início, mas também no que ele representa.

Toda religião tem símbolos e simbolismos. Uma cruz para os católicos representa muito também: todo o significado da paixão e do sacrifício de Jesus. Assim esse símbolo traduz em si muito mais do que somente a lembrança da crucificação de Jesus e sim um todo da sua doutrina, poderíamos falar muito apenas olhando para uma cruz. O mesmo vale para um Igbá.

O Igbá é uma manifestação de Fé, e por isso um reconhecimento de nossa Fé na religião.
Um dos principais usos que se dá a ele é receber os Ebós, que são sacrifícios de todo o tipo, entendendo que o sentido de sacrifício na religião não envolve o uso de sangue em si. Um sacrifício pode ser qualquer oferenda que vai se converter em axé (àṣẹ). Um Obi é um sacrificio, um Acaça é um sacrifício e pode substituir um boi.

Esse aspecto de participar ativamente de Ebós é uma finalidade muito importante, mas não imprescindível. Não se precisa de uma Igbá para fazer uma oferenda, mas todo sacerdote tem e usa os seus para isso. Isso tem todo o sentido, sendo o Igbá um elemento de ligação ou de potencialização dessa ligação, como esta sendo dito, realizar isso junto a eles é fazer esse instrumento funcionar.

O ponto que esta sendo ressaltado é que o Igbá em um Ebó é o instrumento que direciona, potencializa e agiliza a este axé chegar ao Orun.

Ele pode ser coletivo ou individual. Quando coletiva chama-se Ojobó (ajọbọ) e liga uma comunidade a sua comunidade espiritual, ao coletivo que ela representa e a divindade que a protege.

O Igbá é feito usando materiais que estão ligados à divindade que ele representa. Assim o material e o seu conteúdo ajudam a estabelecer a relação, devendo ser utilizados sempre elementos completamente afins com a divindade e que traduzem a matéria original do Orun. Conhecer essas relações e afinidades é parte do aprendizado de um iniciado durante sua vida e somente aqueles que as conhecem terão verdadeiro sucesso no seu trabalho ritualístico.O principal elemento dentro de um Igbá é a pedra, o okuta. Acima de todos os demais componentes ela receberá todo o trabalho ritual de preparação e por essa razão muitos dizem que é a única coisa importante, todo o demais é apenas decorativo. A pedra significa a longevidade a existência perene.

Os demais elementos fazem parte do enredo do Orixá de maneira que não são apenas decorativos. Entretanto muitos ítens que são colocados em um Igbá podem ser meramente decorativos. Os demais elementos variam entre metais, favas, folhas e outros materiais que remetem ao Orixá. O elemento escolhido para o recipiente do Igbá também terá relação direta com ele.

Cada Orixá (òrìṣà) tem os seus elementos correspondentes no Ayé, adornos e enfeites. O importante são as folhas, as favas, os metais e outros elementos genéricos como os búzios. O material do recipiente externo é escolhido entre algumas opções. A cabaça é substituída pela porcelana branca para os Orixás (òrìṣà) Fun Fun, o barro e excepecionalmente a madeira para um Orixá específico. As cores desses materiais e elementos decorativos vão compor esse conjunto de forma harmoniosa. Para os caso das cores existe muita criativade.

Algumas casas fazem todos esses Igbá durante o processo de iniciação, outras vão adicionando isso ao longo das obrigações. Se a pessoa terá Oye de Babalorixá (babalórìṣà) ou dependendo o Oye que essa pessoa venha a ter, o conjunto de Igbás (awọn igbá) será distinto de pessoas que não terão Oye – cargo sacerdotal. Observe que nem todo mundo que é iniciado nessa religião será um Babalorixá (babalórìṣà) ou Yalorixá (ìyalórìṣà). A maior parte sera formada de egbons, ou seja, irmãos mais velhos.

Um iniciado em uma casa terá então uma quantidade significativa de Igbás. Mas, a quem pertence isso, a quem pertencem esses Igbás? Digo isso porque todos devem ter conhecimento do problema envolvido na posse de Igbá Orixá. Muitas casas não permitem que nunca a pessoa retire os Igbá de dentro dela, nem mesmo quando seria natural que é quando a pessoa completa seus 7 anos.

O mais comum é que após desavenças durante o seu período de Ìyawó a pessoa quera deixar o Ilê Axé (Ilé àṣẹ) e naturalmente queira levar consigo os seus Igbás. Muitos as vezes nem conseguem mais entrar e ficam preocupados tendo deixado para trás seus Igbás devido a eles representarem um ponto de vulnerabilidade.

De fato, todos tem razão. Um Igbá sempre será um ponto de vulnerabilidade, principalmente o Igbá Ori. Esse jamais deveria estar em um Ilê Axé (Ilé àṣẹ). Mas a primeira coisa que tenho a dizer é tome cuidado com o que faz da sua vida. Nunca entre em nada sem avaliar tudo antes. Tem que conhecer primeiro a casa, o dirigente e as pessoas que frequentam a casa. As pessoas se dão mal porque se precipitam, colocam a vaidade na frente. Assim se a decisão de iniciação for mais consciente os problema serão menores. Segundo não se sai de um Ilê Axé (Ilé àṣẹ) por qualquer motivo fútil. Se foi seu Orixá (òrìṣà) que escolheu aquela casa (essa é a tradição), é o Orixá (òrìṣà) que escolhe onde quer ser iniciado e não a pessoa, então se submeta aos caprichos de outros. Mantenha o seu respeito e sua individualidade, mas vaidade por vaidade a sua deve ser a menor.
Durante uma feitura não existe apenas um processo de individualização existe também um processo de ligação com o Axé (àṣẹ) da Casa e do iniciador. Um Ìyawó está fortemente ligado a Casa e a pessoa que o iniciou. O processo ritualístico leva componentes que criam essa ligação, assim o iniciador considera que aqueles Igbá não são independentes, eles adicionaram axé a Casa e receberam axé da Casa. Formam parte de um conjunto. É entendido que seu sentido de existir é dentro daquela Casa.

Se a pessoa sair, que faça seus Igbá na sua próxima casa. De maneira que não estamos discutindo a propriedade de louças e barro e sim de axé. Isso é verdade. Se você deixa para trás os seus Igbás, não se preocupe, faça outros no próximo lugar que vai, o Orixá vai com você.

Eu entendo que o ninguém segura ou fixa um Orixá na sua casa mantendo o Igbá de um iniciado que se foi. O Igbá é uma individualização e só tem sentido, só tem função junto ao próprio iniciado. Se quiser manter um Orixá em casa que trate melhor as pessoas.

Com a morte do iniciado o Igbá deixa de ter sentido. A ligação não mais existe e se você não quer conviver com um egun atrás de você é recomendado que despache tudo junto. Existem pessoas que entendem que se deve consultar o Oráculo para saber se o Orixá (òrìṣà) quer ir embora ou não, ou seja, se o Igbá vai ou não no carrego e em vitude dessa consulta muitos Igbá ficam no Ilê Axé (Ilé àṣẹ). Entendo que é um forma de ver isso. Acho mais natural que tudo se vá, não há motivo para se manter um vínculo Orun-aìyé (ọ̀run-aìyé) com um Ori que não mais existe no Aìyé, isso vai contra o fundamento do Axexê (aṣeṣe), mas, cada um siga sua consciência e o que aprendeu.

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2 Responses to IGBÁ ÒRÌSÀ

  1. Pedro de Carvalho Augusto says:

    Excelente post! Muito esclarecedor mesmo! Como muitos, hoje passo pela incômoda situação de mudar de Ilê,e estou ainda mais confiante por ler algo que se alinha ao meu pensamento. Meu Orixá mora no meu Ori! A definição dada para a função do Igbá, é muito feliz em tudo.
    Grato pelas explicações,

    Pedro de Carvalho Augusto

    • Mukuiu N’Zambi!Fico feliz por ter gostado. Como sempre eu falo em minha Casa, confie em seu Orixá e ele sempre lhe dará o caminho. Boa sorte ao Irmão nesta mudança e que o seu novo Ilê lhe traga muitas felicidades.

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