União dos Povos de Terreiro

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Encontramos hoje no Brasil uma gama muito grande Religiões de matriz africana. Temos dentre elas o diversos Cultos da Nações (Keto, Gêge, Angola, Xambá, Omolokô, Batuque e outros), bem como a Umbanda com suas diversas vertentes (Esotérica, Iniciática, Branca, Traçada e outras).
Dentro dos Cultos de Nações é comum se escutar uma certa discussão de cunho purista, na qual muitos Zeladores costumam dizer que “minha Nação tem raiz africana, aquela outra não considero porque não tem”. Bem vamos filosofar um pouco a respeito disto.
Verificando a trajetória dos diversos Cultos de Nações vamos verificar que na África não existe nada semelhante ao que existe no Brasil. Lá as divindades não são cultuadas dentro do mesmo espaço e nem mesmo por um mesmo sacerdote. A forma de se cultuar divindades em um mesmo local por um mesmo sacerdote foi criada aqui, devido a mistura de negros de diversas regiões e etnias dentro de um mesmo espaço. Portanto não são religiões africanas, haja visto que se formaram aqui, e sim religiões formadas com base na cultura e crença de diversos povos africanos que foram trazidos para cá como escravos.
Com o tempo houve uma divisão de forma que cada povo buscou enfatizar sua cultura, dando surgimento às diversas Nações, mas que de alguma forma carregaram consigo aspectos adquiridos ao longo da miscigenação anteriormente vivida.
Assim, me desculpem os puristas, mas as religiões que vemos hoje são religiões de matriz africana, matriz porque a cultura africana foi sua base, mas são brasileiras por que foram formadas aqui. Diz-se Culto de Nações uma vez que são a celebração da cultura e crença de determinado povo africano em solo brasileiro, mas de forma diferente do que era feita inicialmente na África.
Vejo um certo perigo na busca do purismo. O termo Nação significa um grupo de pessoas que possuem culturas e línguas iguais, e quando um grupo desses se coloca em um pedestal, com a idéia fixa de que são superiores aos outros, abrimos espaço pra sentimentos ruins como desprezo, preconceito, intolerância e até mesmo, em alguns casos, o ódio. Temos exemplo (obviamente guardando as devidas proporções) em nossa história através do nazismo, o qual levou milhares de judeus ao extermínio.
Eu mesmo já fui destratado por uma Zeladora de outra Nação alegando que Omolokô era uma “bagunça”, assim como já vi Zelador de Omolokô dizer que tal Nação é fraca. Zelador falando que tal Nação “importou” determinado fundamento da sua, que Keto não trabalha com catiço, mas tem Terreiro trabalhando com Exu, e por aí vai.
O ser humano, sociologicamente falando, em sua natureza tende a trazer determinado traço de cultura de um grupo para outro quando convivem em proximidade. Isso é plenamente normal, e não vejo problema nenhum desde que o cerne da cultura original do grupo não seja afetado.
Os negros de Angola formavam inicialmente a Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo, fundada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho. Os daomeanos (Gêges) reuniam-se sob a devoção de Nosso Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos, na Capela do Corpo Santo, na Cidade Baixa. Os nagôs, cuja maioria pertencia à nação Kêto, formavam duas irmandades: uma de mulheres, a de Nossa Senhora da Boa Morte; outra reservada aos homens, a de Nosso Senhor dos Martírios. No Sul do Brasil os negros de etnia Ijexá e os Cabindas que vieram antes fundiram sua culturas formando o Batuque. O Omolokô formou-se baseado na cultura dos Lundas Kiokos e de Maria Batayo no seu terreiro na Roça do morro de São Carlos. Estas são as raízes dos cultos de Nação, as “sementes” vieram da África, mas as “árvores” nasceram e cresceram no Brasil.
O mesmos acontece na Umbanda onde devido às diversas correntes e influências temos diferenças marcantes, tanto regionais, como de Casa para Casa, propiciando muitas vezes discussões e críticas entre elas.
Não adianta fazermos marchas, manifesto e outras ações de combate a intolerância religiosa se a cultivamos dentro de nossas Casas. Para que respeitem as Religiões de matriz africana devemos nos respeitar primeiro. Quem quer respeito deve respeitar o outro, esta regra é básica.
Nós Zeladores devemos ensinar aos nossos filhos que a religião que escolhemos é a melhor para nós, o que não significa que é superior a outra, e que somente com a união entre os povos de Terreiro é que conseguiremos o respeito e reconhecimento dos nossos direitos perante a sociedade. Afinal de contas, buscamos o bem estar comum, a ajuda ao próximo e a evolução espiritual.
Enfim, vamos ter em mente que nos fortalecemos quando enaltecemos as nossas semelhanças e nos enfraquecemos em nossas diferenças.

Babalorixá Renato T’Ogun

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2 Responses to União dos Povos de Terreiro

  1. oju says:

    Legal Babá! Grande mensagem nesses tempos em que pouco se olha para si…

  2. maron says:

    o senhor conseguiu descrever tudo oque eu penso e sinto após de algum tendo estudando sobre o assunto

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