CHEGA DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

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Sou militar e constantemente sou criticado dentro do ambiente de trabalho, tanto pelos que trabalham comigo quanto pelo seus familiares, pois muitos deles não se conformam com um major “macumbeiro”, como se tivessem o direito de opinar sobre minha crença e sobre minha vida particular que nada lhe dizem respeito.Motivo que levou-me a estabelecer um diálogo elucidativo acerca da questão do “Terreiro de Macumba”, tudo porque sou crente de Religião Tradicional de Matriz Africana.
Fico chateadíssimo, e não tão enraivado e irado quanto essas pessoas “donas de suas verdades”, pois sou ciente de que nós temos paradigmas teológicos diametralmente opostos. E que tal referência pejorativa às Religiões de Matriz Africana, é usada como trampolim para promoção de falsos moralistas e religiosos sem fé e fundamentos. Os quais possuem problemas que não conseguem resolver, porém gastam seu tempo procurando problemas alheios nas coisas particulares de cada um para desviarem de seus próprios.
Em parte, isso acontece porque há uma política humana religiosa acirrada no meio dos múltiplos segmentos religiosos existentes, e também, devido às Religiões de Matriz Africana terem sido marginalizadas ao longo de nossa história. Fato advindo do furor catequético no período de formação de nossa Nação, somado com as doutrinas que caminham ” pari passu” com o dogma da indulgência do dízimo.
Quando visito vários sites de Umbanda, sites de Candomblé, site da Religião Tradicional Nigeriana no Brasil não encontro nenhuma alusão negativa aos dogmas de outras Religiões.
A religiosidade africana é bem anterior as várias vertentes e versões dos cristianismos ocidentais; segundo, as Religiões de Matriz Africana não tem a bíblia como livro sagrado ou modelo para o exercício da fé e nem desejamos seguir quaisquer desses cristianismos.
Assim como o Alcorão, o Torá, A Santa Sutra, o Livro Sagrado dos Vedas, temos também nossos ensinamentos próprios, sem desmerecer a religião alheia. Partimos do princípio que N’Zambi (Deus) não deixou nenhum povo órfão de Sua Revelação Divina e, por isso mesmo, não acreditamos que o povo de Israel recebeu uma espécie de procuração divina para anunciá-Lo aos demais povos. Não há dois Deus(es)! Deus é um só! O que existe são decodificações culturais-teológicas para se falar de uma coisa só, passada pelo crivo da cultura e das limitações humanas de todo nosso Planeta. Todos os textos sagrados do mundo perseguem valores universais sob princípios e paradigmas diferentes! E as Escrituras Sagradas de Ifá(Ìwé Odù Mimó) também expressam essas verdades das leis divinas Universais, quer sejam orais ou escritas.
Sugiro a estas pessoas que leiam um pouco sobre esse assunto, pois há muita gente séria, pesquisadores acadêmicos, fiéis ou não da religiosidade afro-brasileira, que acreditam que o direito do crença do “Povo de Santo” é o mesmo de todos.
Não copiamos nada de outras religiões, como algumas que existem por aí, com seus banhos de descarregos, sal grosso, vestes brancas às sextas-feiras etc e tal, e no entanto nos chamam de “adoradores do capeta”.
Já escutei vários discursos com conteúdo “endiabrador” das várias etnias africanas, retomando uma discussão proselitista e fundamentalista no período colonial expressa nos sermões do padre e escritor católico, Antônio Vieira, numa tentativa vã de conversão do povo africano e seus descentendes afro-brasileiro sob a catequese do medo.
Portanto, temos uma teologia própria, uma concepção religiosa que difere substancialmente das doutrinas professadas pelos vários cristianismos e defendemos a pluralidade religiosa, sem fundamentalismos, em nosso Brasil, marcado profundamente pela pluralidade histórica, geográfica, étnica, sócio-econômica, política e religiosa. Respeitem isso! Muitas das Religiões que temos hoje estão “embriagadas” pelo fanatismo insano na briga do “ide fazer adeptos”, esquecendo-se das leis que garantem a liberdade de consciência e de crença, livre exercício de culto religioso, prática de discriminação ou preconceito religioso, cujos crimes estão juridicamente documentados na Constituição Federal e no Código de Processo Penal. Cuidado! O “Povo de Santo” pode processar por crime de difamação e preconceito religioso as pessoas que atribuem ao “seu diabo” a nossa cosmovisão do sagrado expressa em nossas práticas culturais-religiosas.

Babalorixá Renato T’Ogun

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5 Responses to CHEGA DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

  1. Suliene says:

    Meu Pai Renato, Adorei seu texto e suas belas palavras, em especial no que tange a parte Histórica das religiões, visto que, as religiões de matrizes africanas estão no cerne da identidade do povo brasileiro, assim como traços corriqueiros de nossa cultura, mas isto é uma outra História…., no entanto em se falando de intolerância religiosa, penso que, as pessoas adoram julgar as religiões de matriz africana, e na nossa cidade (ITAQUI-RS), percebo que a nossa religião (UMBANDA) é muito mal vista pelos leigos e inclusive os que nela frequentam. Portanto, ainda tenho muito que aprender sobre ela, e a todos os dias que vou no terreiro eu aprendo e aprendo, pois somos seres em aprendizagem constante. Intolerância religiosa é crime de ódio e fere a dignidade, O direito de criticar dogmas e encaminhamentos é assegurado como liberdade de expressão, mas atitudes agressivas, ofensas e tratamento diferenciado a alguém em função de crença ou de não ter religião são crimes inafiançáveis e imprescritíveis, portanto quando alguém falar que somos macumbeiros, no sentido de ofensa ou coisa parecida, estas pessoas estão cometendo crime, mas isso também é uma outra História. Então vamos pedir a Deus que pessoas como o senhor continuem a cultuar e defender posições como estas, e todos que estamos dentro da UMBANDA, possamos também nos posicionarmos, pois como educadora tenho o dever e obrigação de criticar o respeito a todas as religiões, muito axé a todos e uma boa noite aos irmãos que estão lendo o blog e se informando sobre o assunto em pauta. Att, Suliene Fontella Rodrigues.

  2. Suliene says:

    digo, que tenho o dever de criticar o desrespeito a todas as religiões….

  3. Pedro de Carvalho Augusto says:

    Babá Renato, boa tarde.

    Concordo plenamente com tudo, da Unidade Divina à possibilidade de ajuizarmos ações quando desrespeitados.

    Somos felizes cultuando nossos Orixás, e não nos metemos na religião alheia, e como diria o sábio e saudoso Pierre Fatunbi Verger: ” O Candomblé (e creio que isso se aplica a todas as vertentes das religiões afro-derivadas) sobrevive até hoje porque não quer convencer as pessoas sobre uma verdade absoluta, ao contrário da maioria das religiões”.

    Forte abraço e parabéns pelas palavras,

    Pedro de Carvalho Augusto

  4. Carlos says:

    Esta é uma questão muito polêmica. Cada um que opina sobre religião se acha eivado de razão, como se a verdade somente lhe pertencesse. A religião nada mais é que um caminho para a conexão com o Divino. Somos livres pra escolher qual caminho tomaremos para chegar até “pai”. Esse livre arbítrio foi concedido pela divindade para que escolhêssemos o caminho mais adequado as nossas convicções. Não existe religião certa ou errada, existem tão somente perspectivas diferentes sobre Deus. Com relação às criticas que o senhor vem sofrendo, acredito que devam ser relevadas. Os críticos consideram que uma pessoa com cultura e relativa condição financeira, não deva acreditar em espíritos e nossa relação com eles. Como se a Bíblia não fosse o livro mais fantasioso já escrito. Não acreditam em reencarnação ou contato com a espiritualidade, não obstante, creem em ressurreição. Não vemos espíritos o tempo todo, e também, não vemos mortos ressurgindo dos cemitérios. O mais importante disso tudo é fazermos aquilo que acreditamos importante para nossa evolução e das pessoas que nos procuram. Tenha Fé irmão, pois enquanto muitos colocam o Livro Sagrado de baixo do braço e não aplicam seus ensinamentos em suas vidas, o Sr trabalha sempre que possível, para a caridade e crescimento espiritual dos irmãos necessitados. Concito o irmão de fé a continuar nesta senda de trabalho, pois muito tem ajudado, por intermédio de seus guias, aos que lhe pedem auxílio.

    Muito axé Pai Renato.

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